Chegada de milhares de imigrantes gera guerra diplomática

14/09/2021


Reino Unido quer devolver à França barcos que cruzam Canal da Mancha



O número de barcos que cruza o Canal da Mancha explodiu nas últimas semanas e meses, ultrapassando o recorde de 2020. O Reino Unido quer devolver à França os barcos que transportam migrantes pelo Canal da Mancha, mas a França é contra.


O fluxo incessante de migrantes que cruzam atualmente o Canal da Mancha em barcos cada vez mais precários pôs França e Reino Unido em lados opostos. De acordo com o Ministério do Interior britânico, mais 14 mil pessoas tentaram chegar ao país pelo estreito, excedendo os números de 2020.


Só na semana passada, mais de 1,5 mil pessoas cruzaram o Canal da Mancha. E em um único dia no fim de agosto, 828 fizeram a travessia, um novo recorde estabelecido. "Os números são inaceitáveis, então estamos agindo em todas as frentes", disse em agosto o comandante britânico Dan O'Mahoney, responsável pelo monitoramento das águas que separam o Reino Unido da França.


"As agências de segurança estão desmantelando as gangues de tráfico de pessoas (que costumam operar a travessia do canal). O trabalho em conjunto com os franceses dobrou o número de policiais nas praias francesas", acrescentou.


Mas essa colaboração se transformou em um foco de atrito entre os dois países. "Existem várias razões que explicam o aumento de migrantes que cruzam o canal", diz Peter Walsh, pesquisador do Observatório de Migração da Universidade de Oxford (Inglaterra), à BBC Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.


Walsh trabalha analisando dados do Ministério do Interior, das Nações Unidas e de requerentes de asilo no Reino Unido.


Segundo ele, a raiz do problema é "geopolítica". "A maioria dos migrantes vem do Irã, Afeganistão, Iêmen, Síria e Sudão, países em conflito onde há guerras e perseguição política."


"A variação sazonal é outra explicação: o número aumenta quando o mar está calmo e o céu está limpo (como tem acontecido nos últimos dias e semanas)", acrescenta.


O especialista acrescenta que as rotas terrestres estão cada vez mais "inviáveis" para a travessia de migrantes porque são cada vez mais vigiadas. Somam-se a isso as restrições durante a pandemia e devido ao Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.


'Meia volta'

Na quinta-feira (9/9), a ministra do Interior do Reino Unido, Priti Patel, disse querer devolver à França os barcos que transportam migrantes pelo Canal da Mancha.


Fontes do governo inglês confirmaram à BBC que uma equipe da Força de Fronteira britânica vem treinando há meses para iniciar a operação.


Por essa tática, autoridades britânicas forçariam os barcos de migrantes a dar meia volta no canal. Caberia, então, à guarda costeira francesa interceptar as embarcações em suas águas.


No entanto, a França se opõe ao plano. O ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, disse que "proteger vidas humanas no mar é uma prioridade".