Governo cubano tenta conter revolta popular

12/07/2021


Manifestações estão se propagando com velocidade nas redes sociais



Diante dos maiores protestos registrados em 27 anos contra o regime, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, convocou a população a uma reação para defender a Revolução Cubana da ação de “mercenários e contrarrevolucionários”. Não surtiu efeito. A adesão de manifestantes se estendeu espontaneamente por várias cidades e fez o presidente correr para San Antonio de los Baños, a 26 quilômetros de Havana, um dos focos da revolta de domingo, a fim de mobilizar partidários.


A terceira onda da pandemia do novo coronavírus, aliada à falta de medicamentos e alimentos e ao sistema de saúde à beira do colapso, castiga o país sem piedade. A despeito das denúncias de subnotificações, os casos se alastram em uma proporção assustadora: cerca de 7 mil infectados por dia, segundo dados oficiais, registrando a taxa de 1.300 para cada 100 mil habitantes.


O governo descartou a proposta de criar um corredor humanitário em Cuba, sob o argumento de que a imagem do caos no sistema de saúde – a vitrine do regime -- faz parte de uma campanha orquestrada no exterior e que não corresponde à realidade.


Se pandemia e escassez foram o motor propulsor para encher as ruas no domingo, gritos por liberdade e pelo fim do regime ecoaram fortemente nos protestos. Manifestantes cantaram trechos de “Patria y vida”, o rap que virou o hino da insatisfação cubana e contesta o mantra “Pátria e morte”, entoado por Fidel.


“Acabou o medo”, indicou Erika Guevara-Rosas, diretora da Anistia Internacional para as Américas, ao notificar, pelo Twitter, o “incrível e poderoso protesto espontâneo em Cuba”.


Em três anos no comando da ilha caribenha, Díaz-Canel abriu o acesso à internet, sem o qual o desenvolvimento não é mais possível. Agora, enfrenta seu teste mais desafiador -- o de conter a frustração popular que se propaga na velocidade das redes sociais.


O regime tem reprimido fortemente as ações de artistas e jornalistas, tachados de agentes a serviço dos EUA, com prisões arbitrárias e apagões da internet.


Recentemente, num encontro com intelectuais cubanos, ele deixou claro que a liberdade de expressão é limitada pela própria Revolução de 1959: “Dentro da Revolução, a única coisa que não está em discussão é a Revolução.”


O presidente parafraseava um lema proferido 60 anos antes por Fidel Castro: “Dentro da Revolução, tudo; fora da Revolução, nada.” Neste domingo, contudo, os cubanos se multiplicaram nas ruas para desafiar mais um mantra em vigor há seis décadas.